Não, não vos venho aqui falar da música dos Iron Maiden (mas se quiserem ouvir, fica aqui o link ^^ Eu cá acho que vale a pena darem uma espreitadela/"ouvidela" =P ). Vou mesmo falar do meu medo do escuro. E da estranha maneira como o ultrapassei.
Quando era pequena (isto é, mais pequena, que ainda sou uma "amostra de gente" ^^ ), tive um problema nos ouvidos. Não vos posso dizer, com certeza, o que era, mas foi provocado por otites sucessivas e mal curadas. Claro que, de início, era o "deixa andar" e "isto cura-se". Até ao momento que comecei, progressivamente, a deixar de ouvir. Então a minha avó levou-me a um otorrino. E bem... foi bastante complicado.
O tratamento durou anos e custou uma pequena fortuna. As dores eram... incomportáveis. Se não fosse a diligência da minha avó, agora estaria, muito provavelmente, surda. Foi quase um milagre conseguir salvar o ouvido direito. Ainda assim, ouço bastante mal mas, com o tempo, aprendi a disfarçar. Pode parecer estranho, e não é algo que consiga explicar, mas tenho vergonha da minha fraca audição. É quase como admitir que sou menos que as outras pessoas. Tenho razões para me sentir assim? Claro que não. Mas o ser humano é demasiado complicado para ser definido.
Foi um período negro. Não tenho grandes recordações dessa altura, mas há uma que nunca me deixará. É uma das minhas memórias mais antigas. Deveria ter uns quatro anos de idade. As dores de ouvidos que tinha eram tantas, que acordei a meio da noite aos berros e a chorar de uma maneira que parecia que me estavam a matar. Foram as piores dores que já senti. Já tive dores de dentes, que se ouve dizer por aí que são as mais difíceis de suportar (é curioso que, nestas situações, nunca se falam das dores de parto… mas eu essas nunca senti), mas nada se compara com a sensação de que os nossos ouvidos estão a ser perfurados, esborrachados e feitos em papa, e que, graças a isso, a nossa cabeça vai explodir. Não para mim. Há anos que não sinto nem nada parecido, mas mesmo assim, nunca me esqueci da sensação que aquela dor me proporcionou. E não é uma memória que goste de revisitar.
Lembro-me também que, depois de alguns minutos de berreiro, tomei noção de que estava sozinha e às escuras no meu quarto. As dores eram de tal ordem, que nem dei conta do que rodeava. E tive medo, não apenas das dores, mas da penumbra completa que era o meu quarto. Nessa altura ainda tinha medo do escuro, como muitas crianças dessa idade. Mas as dores eram tantas e tão desesperantes que suplantaram o medo do escuro que, depois disso, nunca mais voltou. Estranho constactar que uma dor tão excrusciante me fez perder uma fobia. Pena foi quase ter ficado surda à conta disso.
Os seres humanos são mesmo estranhos.
Ide masé ouvir a música dos Iron Maiden =P







