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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Acontecimentos de Merdi Gras

Para mim, que ainda só terei uma semana de férias em Agosto, enquanto espero por mais dias sem mexer um mindelo esparramada no sofá, enquanto as tarefas domésticas que tenho em cima do lombo se multiplicam à velocidade de um funil, a época em que vivo é parecida com a páscoa: tempo de contrição, até ao esperado momento em que o comum dos mortais tira a barriga de misérias papando uma quantidade insana de chocolate até ter uma valente dor de barriga, naquela que é mundialmente conhecida como watching animation movies and eating chocolate day. Ou entra de férias, no meu caso.

Mas como eu ia a dizer, até lá, é tempo de passar um mau bocado, pelo menos, sem as regras de alimentação extremamente restritas e apalermadas da páscoa, expecto para aqueles que vão pagar a gula ao ministro do culto. "Ai não posso comer carne quando me apetece? Vou já abrir os cordões à bolsa e vamos ver se não me posso empandeirar com uma vitela assada da quarta-feira de cinzas!". Ou, aproveitando a analogia acima, de quem tem empregada doméstica (se bem que eu até gosto de peixe, apesar de uma tosta mista vir mesmo a calhar em qualquer altura do ano).

Toda esta conversa faz-me lembrar de um acontecimento que ocorreu há uns tempos, em forma de "oh senhores, vou mandar esta gaja pela janela do comboio e quando ela se esborrachar contra a protecção sonora mais próxima, acabaram-se os problemas. Os dela, e os meus, que é estar a ouvi-la".


A tarde prometia. Ia a uma festa com o Moço, comer cheesecake de oreo e conhecer um gato. O comboio já estava semi cheio, por isso, tivemos que nos sentar ao lado de uma rapariga chorosa, que piava ao telemóvel um desgosto amoroso tipicamente pital. Até aí, nada de novo. Quem nunca encontrou uma cena destas na vida, ou não é deste mundo, ou tem uma sorte do caraças. O qual não é, como irão ver, o meu caso.

A rapariga malditou-se em como ele já não queria nada com ela, que tinha que tirar as coisas dela da casa dele e que não queria ficar a trabalhar no sítio onde estava nem mais um dia, mas tinha que dar uns dias à casa. Uns dez minutos depois de mi mi mis, o silêncio. Que só durou escassos segundos, o tempo necessário para a moça ligar a outra pessoa. Chorou, voltou a repetir a toda uma história, mas acrescentou alguns pormenores. "Já a primeira vez foi assim, agora à segunda já não volto!" Espera lá, essa cassete já está a passar em repeat?!


Confesso que cheguei, no início, a ter pena da rapariga, porque não é fácil interromper as férias com a família com quem se estás de vez em quando, porque mudaste-te completamente para outra cidade por causa da pessoa que gostas, mas que, milagrosamente, acabou de se borrifar em ti. Pela segunda vez. Mas de mim ninguém tem pena, nem das restantes pessoas que se encontravam naquela carruagem, até porque a moça não falava propriamente baixo. Eu bem tentava iniciar todo o tipo de conversas com o Moço para não estupidificar, ou cometer um crime de sangue.

Toda esta história foi ganhando novos e retorcidos contornos ao longos das restantes chamadas que a moça foi fazendo para várias pessoas. Lá pela oitava chamada, deixei dar conta das vezes que ela repetia a conversa toda a uma criatura diferente ao telemóvel. "Não quero é estar a contar à macacada toda...". Pois não, mas estás a contar porra da tua vida toda ao resto do jardim zoológico e eu não quero sabeeeeeerr!! "Amanhã bebo uma garrafa de vinho, ressaco e isto passa." Grande filosofia, acho que vou adoptar. Só que não.


À páginas tantas, eu desisti de ter uma conversa com o Moço, pois o patife não largava a m*rda do telemóvel. Crescia em mim a vontade latente de, já que estava para mandar um pontapé na gaja para a enviar a alta velocidade para o poste da Ren mais próximo, economizar nos golpes à Karaté Kid e, num só salto, mandar gaja, Moço e o telemóvel de ambos com os porcos. Mas contive-me. Até porque pouco depois percebi que o telemóvel era o veículo que o Moço estava a usar para contar a toda a gente que encontrasse nas redes sociais do nosso pesadelo.

Finalmente tivemos que sair... e a rapariga lá continuou os seus telefonemas, atrás de nós, mas rumo ao alfa-pendular. De zero a "oh meu Deus ele tem um saca-rolhas", o quão traumatizante foi para mim? Algures perto do "çocorrr!!". E só porque acabei de me lembrar desta situação traumática, vou ali comer um chocolate, que eu mereço.



* Mardi Gras está mal escrito ali no título, mas foi de propósito. Só para esclarecer =)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

A felicidade e os animais da quinta

Um dia destes estava à espera no carro, no meu habitual "lugar do morto". Já calculava que ia ficar um bom tempinho lá, por isso, liguei o rádio, a minha fiel companhia nas horas de seca. Como uma pessoa com voz de cana rachada que se prese, também gosto de cantar as musiquetas transmitidas nos vários canais FM, mesmo não sendo aquelas que mais gosto. Mas não sou assim tão tonta de me pôr a berrar a plenos pulmões quando sei que tenho o vidro do carro aberto. Só faço isso quando o ambiente está completamente selado, para não matar ninguém de susto.

Conforme trauteava de forma bastante discreta alguma frasesinhas, ia olhando para os lados para ter a certeza que os homenzinhos que fiscalizam o estacionamento pago (o equivalente aos Emélios em Lisboa) não estavam à espreita. Sim, havia algum propósito para eu estar ali, pois claro, o era evitar do "usar a moedinha", e o posso garantir que sou bastante eficiente nesta função.

Em determinado momento em que não posso precisar, entre os não sei quantos minutos de música seguida, transmitiram alguma publicidade. Em especial, um certo anúncio sobre uma empresa que comercializa produtos lácteos. Eis senão quando, ocorreu a seguinte situação

* Senhora Incauta aproxegou-se do veículo e instintivamente, olhou para dentro do carro.*
*Nightwisha Maria bamboleava-se da esquerda para a direita enquanto cantava, a plenos pulmões, com o vidro aberto, "uma vaca feliz, outra vaca feliiiizz....!".*
*Nightwisha Maria apercebeu-se do vulto e, instintivamente, olhou para a Senhora Incauta.*
*As duas trocaram olhares.*
*Nightwisha Maria ficou petrificada, com cara de Joker dos trezentos, a olhar para a Senhora Incauta.*
*Senhora Incauta foi à sua vida, provavelmente a considerar emigrar para uma dos novos sete planetas descobertos pela NASA.*

Momento awkward do dia: ultrapassado com sucesso.
Reward: 5k de juízo, mas estava esgotado no mercado, por isso, foi uma cara de ursa para mim.





NOTA: Estes últimos tempos, como podem adivinhar pelo meu "desaparecimento súbito", têm sido trabalhosos... Mas em breve terão, finalmente, a reportagem super objectiva e profissionalíssima da Comic Con Pt 2016 ^^

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Nobrezas

Certo dia, eu e o Moço fossos levantar um voucher de alojamento grátis de uma agência de viagens. Chegados ao local, foi-nos pedido um código promocional que o Moço tinha, porque o contacto tinha sido estabelecido através dele, e ainda o nosso nome, idade e profissão. Como ele é que tinha sido o connect, começaram o inquérito com ele.

Indivíduo 1: Boa tarde, vieram para a apresentação da "Agência de Viagens X"?
Moço: Sim sim.
Indivíduo 1: Muito bem. Então como se chama?
Moço: Moço.
Indivíduo: E que idade tem?
Moço: 33 anos.
Indivíduo 1: E a profissão?
Moço: Operador de loja.
Indivíduo 1: Muito bem. E a esposa?
Nightwisha Maria, *relevando o título de esposa* - Nightwisha Maria.
Indivíduo: E a idade?
Nightwisha Maria: 26 anos.
Indivíduo 1: Profissão?
Nightwisha Maria: Advogada.
*Pausa*
Indivíduo 1: Advogada? E exerce cá?
Nightwisha Maria: Sim, aqui em Braga.
Indivíduo 1: Mas tem escritório na cidade?
Nightwisha Maria: Sim.
Indivíduo 1: Muito bem, vão só aguardar um minutinho e já vos chamo.


Primeiro momento de constrangimento ultrapassado com sucesso. Nível dois desbloqueado.

Fomos então chamados para uma sala, onde se encontravam vários promotores que iram fazer uma apresentação da agência de viagens e tentar fidelizar os vouchariano que ali se encontrassem. Devo dizer que o promotor que nos calhou era bastante simpático, ao contrário do fulano que estava encarregue de apresentar as propostas de pagamentos para a fidelização. Era um bronco autêntico e, vendo que não estávamos interessados nos valores que nos apresentaram, questionou várias vezes, ainda que indirectamente, se o promotor tinha ou não feito bem o seu trabalho, ao ponto de ter tido necessidade de lhe responder na mesma moeda. Se foi bom a tentar persuadir-nos? Sem dúvida. Mais ainda conseguimos pensar pela nossa cabeça, muito obrigada.

Mas como eu ia a dizer, o promotor lá iniciou a sua apresentação, começando por explicar como fazíamos para utilizar o voucher. Alguns blá blá blás depois, o rapaz abriu o voucher para nos mostrar e acabar de preencher e, fazendo uma pausa, pergunta:

Indivíduo 2: Mas quem é advogado dos dois?
Nightwisha Maria *erguendo o braço*: Eu.
Indivíduo 2: Bem... houve aqui uma confusão...
*Nighwisha Maria e Moço olham para o voucher e vêem que o único campo preenchido é a profissão... da Nightwisha Maria. Ainda pensam que há dois papeluchos para preencher, um para cada uma das pessoas em causa, já que o voucher só podia ser levantado em casal. Mas não, era apenas um papel para os dois.
Indivíduo 2: Bem, é para usarem os dois, não é verdade?
Nightwisha Maria e Moço: Sim.
Indivíduo 1: É que o meu colega preencheu o voucher com a profissão da Nightwisha Maria, apesar do contacto ser o Moço. Mas sendo assim, como é para usarem os dois... Vai levar a Nighwisha Maria, não vai Moço?? *risos* Vamos então preencher o voucher com os dados da Nightwisha Maria e depois coloco os contactos dos dois.
Nightwisha Maria e Moço - Ok.

Segundo momento de constrangimento ultrapassado com sucesso. Nível três desbloqueado, para aturar o palerma de quem já vos falei em cima. Naquele momento não deu para falar nada entre mim e o Moço, mas o meu alerta de *situação surreal* fez timm timm timm, mayday mayday! Ele era o contacto, mas eu é que tinha a profissão que interessava, a profissão que traz dinheiro para casa (not yet), a profissão nobre. Até o promotor ficou constrangido, mas até que conseguiu dar a volta à coisa sem fazer grande aparato. E isso é mais uma prova para o bronco de que ele é um bom profissional.


Claro que, no final, e em retrospectiva, a coisa deu para rir, mas mais para não chorar. Não entendo estas mentalidades comezinhas sobre nobreza de profissões. Se eu gosto daquilo que faço? Claro! Não investi anos e anos da minha vida para nada, muito menos para ter um suposto título. Mas a nobreza, independentemente do trabalho, nem sempre fácil, que eu e os meus colegas desempenhamos todos os dias, está, precisamente, no carácter de todos nós, não na nossa cédula profissional. Uma profissão é nobre quando os seus membros o são "cá dentro" e não nos botões do casaco. E não, não castigamos ninguém em nome da Lua.

Cheguei à conclusão, um pouco triste, que o Moço é tipo o Príncipe Philip, Duque de Edimburgo. Não sabem quem é? Pois eu também não sabia até às comemorações dos noventa anos da Rainha Elizabeth II de Inglaterra. Sabem aquele senhor de certa idade, com vestimenta militar, que anda sempre com ela para todo o lado e que se mantém a uma passo a trás da monarca? Pois bem, é o marido dela, o Príncipe Philip da Grécia e da Dinamarca, Duque de Edimburgo. E eu que pensava que a mulher era viúva há décadas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Cada um tem o estacionamento que merece

Desde que me mudei quase permanentemente para Braga, já vivi em várias casas. Em algumas partilhei "instalações", noutras não, numas tive boas experiências, noutras não. Mas em nenhuma precisei de estacionamento (pelo menos, até agora), se bem que, à porta de quase todas elas, havia um lugar especialmente reservado para mim.


Na segunda casa onde vivi, e onde estive três anos, mesmo à porta do prédio havia (e ainda há) um lugar de estacionamento reservado para pessoas com deficiência. Quando me mudei para o prédio do lado nessa mesma rua, não havia "lugares especiais". Só que, passado algum tempo de lá estar, o que é que aparece mesmo em frente à porta da entrada? Um lugar de parqueamento para deficientes.

Entretanto, vim aqui para o Covil. À porta, só lugares "normais" para deixar o carro. No entanto, a entrada do prédio é por um arruamento sem saída, não na rua principal, por onde posso "aceder" se passar pela loja que tem no rés-do-chão do edifício. E o que é que existe mesmo ao lado da entrada da loja pela rua principal?! Não, não é um lugar de parqueamento para deficientes.

São dois.

O universo está a mandar-me uma mensagem, que de subliminar não tem nada: tira a carta e arranja uma chicolateira qualquer para guiar e rasar valente contra os muros, que lugar para deixar a carroça já tens.

sábado, 31 de dezembro de 2016

The best of the worst year ever ou Até para o ano que já estou farta de 2016

O ano que está prestes a abandonar-nos foi, por várias razões, dos piores que me consigo lembrar. Sobretudo, depois do Leo ter ganho o raio do Oscar. Tenho para mim que tal evento não estava predestinado a acontecer e que, graças ao roçanso com a Lady Gaga, ocorreu ali alguma fricção mais próxima de um ritual a Belzebu que outra coisa. Leo, se me estás a ouvir, és muito jeitoso e até tentas alertar o pessoal para os problemas do meio ambiente, essa invenção dos Chineses, como diz o o teu futuro presidente, mas devolve a estatueta. O mundo não é o mesmo. Até pode ser que recebas a tua alma de volta, sem grandes mossas. E convenhamos, ter um moço dourado e nú na prateleira, denota uma certa falta de gosto e decoro.

Mas de entre muitas tristezas e algumas alegrias também, o ano já está no seu final. Tenho apenas pena que não se tenha cancelado o natal, mas lá diz o ditado que não se pode ter tudo. O Leo quis o Oscar e já estamos a ver no que isso deu.

Não me vou estar aqui a pôr com tretas, a fazer listas de resoluções do novo ano, que toda a gente sabe que não será para cumprir, e pensar em coisas exequíveis mas que tenham alguma importância que não o trivial "saudinha e paz no mundo", estilo Miss Qualquer Coisa, dá muito trabalho.

Por isso, vou deixar-vos uma lista dos dez posts mais emocionantes, por boas ou más razões, para rirem ou chorarem, conforme os gostos. Podem sempre chorar a rir, que eu também deixo:
E agora, um post de bónus: Dear Nico (se nunca nos dão os volumes/ número de filmes/ fascículos de uma colecção qualquer da Planeta DeAgostini que nos prometeram, mas sempre mais qualquer coisinha, aqui o tasco local extremamente requintado não ia ser diferente). O post sobre a edição de 2016 da Comic Con fica para o ano, que ainda estou a escarafunchar essa net toda à procura de fotos... Mas vai valer a pena =P

Apesar dos momentos piadéticos, a verdade é que estou farta deste ano. Já me levaste o meu Prince Severus e a Princess Leia, por isso, põe-te a mexer.


Só espero piamente que, quando chegarmos a 2017, a "coisa" não tenha com uma legenda a acompanhar onde conste "2016, parte II". Isso sim, merece qualquer coisa a roçar (ahahahah!! Sou doida, não se vê logo?!) um ritual de Belzebu. Mas ao menos, que seja para roçar um espécime do sexo masculino. E jeitoso, vá.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Dear Nico

Posso chamar-te assim, certo? Aparentemente somos velhos conhecidos, ou coisa parecida. Desde miúda ouço dizer que és tu que me trazes os presentes no natal. Sempre me perguntei como é que era possível saberes o nome e morada de todas as crianças do planeta, as suas boas e más acções, leres todas as suas cartas e entregares as suas prendinhas em tempo record. Tem dias que acho que, das duas uma: ou dás nos ácidos ou então és uma entidade imaginária.

Gostava de saber mais coisas sobre ti, até porque apesar de, alegadamente, me dares presentes todos os anos, nunca nos cruzamos. És mesmo um velhote barbudo e pançudo, com ar de quem já bebeu uns copitos a mais, ou és um rapaz todo pimpão, que gosta de passear com os amigos e pegar na prancha de surf? Será que em vez de Nicholas, és uma Natacha? Seria muito engraçado perceber que, na verdade, eras uma mulher. E, quem sabe, uma mulher empreendedora, que depois de um dia de trabalho, ainda tem que cuidar da casa e dos filhos. Ou das renas e dos pequenos gnomos. Não tem mal nenhum que não sejas casada e tenhas decidido não ter filhos. Não deixas de ser uma mulher por não te resignares ao fogão.

Supostamente, deverias adorar esta época do ano, mas não tenho a certeza se assim é. Não estou a ver como alguém conseguiria fazer tanto em tão pouco tempo sem ter uns 6592 "coisinhos maus" por minuto, a não ser que sejas daquelas pessoas que gosta de sentir a adernalina a bombar nas veias. Eu cá não gosto nada. Mesmo nada. Nada desta bida

E já agora, não te sentes enganado? É que te têm dito todos estes anos que és a figura central das celebrações natalícias, quando na verdade o que toda a gente celebra é o Yule. Será que se esses fervorosos cristão soubessem realmente que toda uma tradição de enfeitar a árvore com luzinhas, penduricalhos, fadinhas e estrelinas, trocar presentes, o azevinho, e até as cores do teu fato são coisas de pagãos, se converteriam ou teriam um piripaque? Também não te informaram, não foi? Mas não posso dizer que não mereças. Tiraste o lugar a um puto recém-nascido que nasceu numa manjedoura, o que estavas à espera? Bolachinhas e um copinho de leite morno?

Mas eu entendo, eu entendo. Este mundo de correrias e consumismo não é nada fácil. Faz-se o que se pode para se ganhar uns trocos. É tudo apressado nesta vida, até as prendas. Sabes aquele menino a quem tiraste o lugar? Ele costumava receber os presentinhos apenas do dia de Reis, precisamente quando o Gaspar, o Melchior e o... aquele, o preto... como é que se chamava mesmo?, chegaram à manjedoura para lhe dar o ouro, o incenso e a mirra. E que ricas prendas... Bem se vê que nem foram os moços que as compraram. Pediram às velhas tias solteiras, que mais ninguém acharia que aquelas coisas iriam fazer falta a um bebé. Excepto a que escolheu o ouro. Essa tia era très chic. Acho que faz todo o sentido dar os presentes em Janeiro, até porque nessa altura, está tudo em desconto, e a conta fica bem mais apetecível. Esta coisa do natal fica cara.

Olho para esta carta, que já vai longa, e vejo que não escrevi nada de jeito. Vou à minha vida e deixo-te para ires à tua. Esta devia ser a parte em que eu começava a pedir que me trouxesses coisas, mas este ano não vou fazer nada disso, até porque acho que fui demasiado naughty para tal (tinkle tinkle). Desta vez vou, ao invés, pedir que as leves. É um serviço de transporte na mesma. Leva-me a tristeza, a ansiedade, as noites sem dormir, as dores no corpo e na alma, e todas as outras coisas e pessoas que me fazem mal. Leva e não as voltes a embrulhar, para as transformares em presentes boomerang. Deixa-as resvalar por um penhasco abaixo, mas um daqueles bem fundos, para ter a certeza que não voltam.

Termino esta carta sem saber o que te desejar, para não correr o risco de ser politicamente incorrecta. Afinal, nem sei em que acreditas tu, ou se até não acreditas, de todo, em nada. Se bem que um contratado acredita sempre em alguma coisa, designadamente, que vai receber o seu dinheirito ao fim do mês (no teu caso é capaz de ser ao fim do ano) e que lhe vão renovar mais uma vez o contrato. (Convenhamos que, bem vistas as coisas, estás numa situação bem precária... Tirar o lugar a um bebé, Nico?!). Por isso, desejo-te apenas umas boas "cenas", so pick your poison. Eu cá fico-me pelo cianeto. O espírito de natal está mais que falecido por estes lados, mas, ainda assim, mais vale prevenir que remediar. Um cianetozinho no chá nunca fez mal a ninguém.

Yours truly,
Nightwisha Maria




* Nota: Este texto é uma sátira ao natal e ao comportamento humano no geral. Todas as piadas tem um intuito humorístico, mesmo as de mau gosto, incluindo as religiosas e raciais. Não é minha intenção que estas piadas sejam uma ofensa para quem quer que seja.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A grande purga

A incursão pelo mundo da Comic Con, fez despertar em mim algumas memórias bem queridas mas, ao mesmo tempo, bastante tristes. O evento foi brutal, ainda estou a recuperar as horas de sono perdidas (ainda que por uma boa causa) e a reunir todas as fotos que andam espalhadas por aí. Terei um post sobre a CCPT 2016 para vocês depois do natal, mas sinto ser importante libertar isto que vai cá dentro.

Graças a uma das bancas presentes no evento, uma catadupa de sentimentos voltou a mim. O meu kokoro parou quando vi os fios com Polly Pockets em prata da Jewels don't Shine. Desde aí, não consigo pensar nas minhas pequenas caixas de bolso, onde cabiam mundos inteiros. Os meus brinquedos. Que já não tenho.


Em criança, sempre fui muito cuidadosa com os meus brinquedos, assim como com os que eram de outros. Adorava ter guardado toda e cada uma dessas peças mágicas, mas tal desejo foi-me retirado à força. Um dia, os adultos acharam-me "demasiado crescida" para conservar brinquedos, coisas que apenas ocupavam espaço e não tinham qualquer serventia. Mas ao invés de os dar a outra criança, para a fazer feliz, os meus pais decidiram mandar cada um dos meus brinquedos para o abismo de um saco preto do lixo de 100 litros. Na minha frente. Enquanto me diziam que nunca mais ia precisar de nenhum daqueles items. A minha infância, as minhas memórias, as minhas Polly Pockets, as minhas figuras de Dragon Ball, as mobílias em plástico das lojas dos trezentos da única casinha de bonecas que pude ter, e tantas, tantas outras coisas, no contentor do lixo.

Imagens das Vintage Polly Pocket (Bluebird Toys) iguais às que eu tinha: Polly's Cafe (1989), Midge's
Flower Shop (1990) e Polly Pocket Birthday Partytime Surprise (1989).


Poucas coisas resistiram ao marco a que chamo A Grande Purga. Pequenos tesouros que, por um acaso da sorte, estavam "perdidos" num qualquer local imprevisível. Curiosamente, ou não, há pouco tempo a minha avó descobriu, num móvel da sua casa, meia perdida, uma saca com os meus Mighty Morphin Power Rangers. Um pouco confusa, chegou a pensar que eram do meu pai, mas eu, eu sabia que era a minha infância a voltar, à força, para mim. Fiquei incrédula e a arrebentar de alegria ao mesmo tempo, algo que não passou despercebido à minha avó, a qual me respondeu: "Eu ia dar isto ao teu pai e ia fazer uma grande asneira sem saber! Ainda bem que tos dei a ti caso contrário, estariam no lixo."

Não são os meus, mas são iguais. Tenho a colecção quase toda, visto que me falta o Power Ranger azul. Se se tocar no botão que têm no cinto, as cabeças mudam de "humanos normais"para os capacetes do seu fato de heróis.


Os brinquedos do meu pai, os quais ele apenas me emprestou e permanecem indiscutibilidade dele, estão sacralmente guardados.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Com as tripas das sacas de compras de fora, ou como as pessoas podem ser (ainda) mais estúpidas, amén

Se o natal é quando o homem quiser, e eu nunca quero, não entendo por que razão "a coisa" se repete todos os anos...

Não é novidade nenhuma que eu tenho um certo e determinado sentimento pelo natal que está muito próximo do ódio. Nos últimos anos tenho cuspido o meu veneno por todo o lado, mais propriamente, por aqui e por acolá, sobre aquela que considero a pior e mais deprimente época do ano. Não tenho boas recordações e parece que há sempre um refluxo, carregadinho de urânio de tão radioactivo, a subir-me pela goela acima todos os anos quando vejo decorações natalícias nas montras das lojas, as luzinhas nas empenas dos edifícios, as músiquinhas horrorosas... e me lembro da via-sacra de compras que vou ter que percorrer outra vez.

Odeio. Fazer. Compras. Sobretudo as de natal. Primeiro: a pesquisa. Tento sempre encontrar prendas que sejam "a cara" das pessoas que as vão receber. Em determinados casos, acabo por "fazer" eu os presentes, uma coisa personalizada, às vezes um pouco trambolha, mas com carinho. (A intenção é que conta, não é verdade? =P ). Segundo: a demanda. Os itens que vimos online não estão disponíveis na loja que visitamos, as pessoas empurram e espezinham "a concorrência" que lhes tenta surripiar as prendas, metade do stock de chocolates da Nestlé e o bacalhau crescido em quantidade para alimentar um batalhão para a ceia onde vão estar apenas quatro pessoas, mesmo nas suas barbas. As lojas estão super quentes e com aquelas melodias dos infernos, que mais parece que, a qualquer momento, poderei ver labaredas a espreitar do expositor mais próximo.

No ano passado fui ao shopping aqui perto para comprar as prendas do Moço. Cheia de saquinhas (eram só três, e duas delas pequeninas, mas eu sou raçada de Leprechaun), ponho um pé fora do edifício... e sou presenteada com uma chuvada medonha. Meia-Moça-Meia-Leprechaun prevenida que sou, levei guarda-chuva... mas também sou trambolha. Por isso, tentei, o melhor que pude, resguardar as sacas mais pequenas, já que uma delas tinha um moinho de café e cereais para o Moço, virando-as para dentro e tentando que o guarda-chuva as protegesse. Muito obviamente, a única saca de papel, a maior, onde levava um robe para o Moço e também algumas coisas para mim, ficou virada para fora. Mas eu, Meia-Moça-Meia-Leprechaun prevenida que sou, mas também crente, achei que a saca sobrevivia a uma pequena viagem de 10 minutos, até porque o aparelhómetro era a prioridade.

Pouco depois de ter deixado o shopping, comecei a reparar que as poucas pessoas que se cruzavam comigo me fitavam com o ar, diga-se, meio parvo. Para ser sincera, já estou habituada que as pessoas fiquem meias tontas a olhar para mim, porque ver uma moça de roupa preta (muito fáshiôn, por acaso) é coisa para vir na capa do jornal diário. Daí que não dei muita importância à questão, apesar de começar a sentir umas comichõezinhas por mim acima.

Entretanto, passei por uma pessoa que estava a tirar o carro de uma garagem da rua que, também ela, ficou a olhar para mim feita idiota e, reparei eu, espreitou pela janela algures para a "zona da minha pessoa" onde também estavam os sacos. Instintivamente, olhei para baixo. A saca de papel que tinha no braço estava toda molhada na parte de baixo, por causa da chuva, e estava aberta já com o conteúdo, constituído pelo dito robe e as minhas cuecas do Mickey e do Batman, a esbordar-se todo para a calçada, quase num golpe de malabarismo circense.

E ninguém, das várias criaturas que passaram por mim na rua, foi capaz de me avisar que tinha a porra das tripas da saca de fora, prestes a esbardalhar-se pelo passeio. Incluindo, insisto, as minhas cuecas.


Claro que, se fosse para criticar a forma como me visto, o tamanho das minhas unhas (sim, isso já aconteceu...), ou a maneira como olho para o pardal que acabou de pousar no parapeito da casa mais próxima, era xinganço estilo Auto de Fé no momento, sem pensar duas vezes. Mas avisar uma pessoa que tem uma saca aberta com as cuecas quase a fazer um caminhinho como as pedrinhas do Hansel, isso já não. Vamos só ficar a olhar feitos atrasados mentais.

Será que já disse que odeio o natal? E pessoas? Também odeio pessoas. Tenho dito.



P.S.: Lembram-se da caça de dragões e da chuva que nos molha, tipo balde de água fria, e que esperamos que não seja para sempre? Pois é, podemos dizer que tive que enfrentar um verdadeiro Cauda de Chifre da Hungria... mas consegui subir a nota do meu exame escrito e passar à fase seguinte. Agora, estou à espera que marquem a minha oral para, finalmente, terminar o estágio da Ordem (admitindo que consigo ser aprovada à primeira *faz figas*). Obrigada a todos os que aturaram as minhas pancas e me deram força para ultrapassar mais este obstáculo, em especial, ao Moço, claro. Porque sim, não pode chover para sempre.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Walls

Eu cá não sou pessoa de me meter em politiquices, mas há muito mais do que isso envolvido na última eleição à presidência dos USA.

Bem cedinho, quando ouvi que o Senhor Trump seria o novo detentor de uns quantos códigos nucleares, pensei que tinha dormido demasiado e acordado no primeiro dia do mês de Abril de 2017, estilo Cinderella pobreta (a outra dormiu por cem anos, eu só me posso ficar por alguns meses). Mas afinal era verdade. Podemos dizer, sem grande alarido ou razão de ciência, que ganhou o descontentamento e a ignorância. Hillary não era a melhor candidata, mas era, sem dúvida, uma opção melhor que esse senhor que foi eleito chefe de estado da "terra da liberdade".

Sejamos sinceros: a América tem o presidente que escolheu. Reflectindo com um pouco de calma, a verdade é que a América tem um presidente à sua imagem e semelhança. O pai de Trump é filho de emigrantes alemães, a mãe é escocesa. Estudou num colégio militar e fez fortuna com a ajuda do pai e à custa do trabalho de gente humilde, na sua maioria, negros e hispânicos, a quem paga miseravelmente. A América foi edificada pelos emigrantes europeus, oriundos sobretudo do UK, e que dizimaram os índios que os ensinaram a trabalhar a terra para não passar fome. Depois, sem mão de obra ao dispor, os colonos brancos importaram uns quantos escravos negros para trabalhar, aquecer as camas e chicotear quando necessário.

A vitória de Trump não é apenas uma derrota de Hillary e os seus democratas. É uma derrota para o mundo inteiro, que poderá ficar comprometido, a qualquer momento, com apenas uma palavra daquele senhor. Talvez os Americanos que elegeram Trump (e que, segundo o próprio, pelo menos nos idos anos 80, são burros e acreditam em qualquer coisa), não tenham realmente a noção do que é ter um louco a governar o seu destino, cujo país pode ser descrito, poucas palavras, como sendo desprovido de História, cultura ou mitologia. A Europa, continente de "grandes snobs", ao contrário, teve duas guerras mundiais travadas no seu território, viu um vasto número de impérios erguer-se e tornar-se cinza, foi palco de bizarros espectáculos proporcionados por diversos lideres despóticos. A América, país com uns meros 240 anos, nas sábias palavras de Alejandro Jodorowsky, tem o Super Homem.

Hoje, no dia em que, há vinte e sete anos, muros foram derrubados, outros se levantam. E não são apenas muros físicos, que dividem geografias, são muros que existem dentro e por dentro da Humanidade. Muros cujos tijolos são a intolerância, o racismo, a xenofobia, a homofobia, a descriminação, o ódio, a ignorância. Posso estar enganada, e espero que, mais tarde, se perceba que sim, mas temo que a Liberdade tenha sido despedida.



ADENDA: Acabei agora de reparar numa coisa curiosa e relativamente desconcertante. Ontem foram 09 de Novembro. 9/11.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Eu e o Jared Leto usamos o mesmo creme anti-rugas


Certo dia, estava numa esplanada com alguns colegas do escritório. Eram todos mais velhos que eu. Eis senão quando, um indivíduo, aproximando-se da nossa mesa, e depois de cumprimentar um dos meus colegas, alvitrou que eu seria a filha dele. O meu colega desfez logo o engano, em resposta do que, o mesmo indivíduo, pedindo desculpa, declarou que pensava que eu tinha dezasseis anos.

Eu só tenho mais dez.

Ok, não vou negar que, daqui a uns anos, vai-me saber bem já estar nos trinta e tirarem-me uns anitos de cima dos ombros e das linhas finas do rosto. Noutras circunstâncias teria rido, mas esta situação foi simplesmente infeliz e desnecessária. É muito chato quando, mesmo que te "vistas bem" e uses saltos altos, ninguém te respeita no trabalho (não foi o caso, mas houve situações que não esteve muito longe) só porque tens bons genes anti-envelhecimento. Não vou fazer umas plástica à cara para parecer mais velha. E não vejo ninguém a queixar-se da fresca vitalidade do Jared Leto.

Resta-me o truque da cara à la Wednesday Addams. Se estiver de trombas, pelo menos, as pessoas pensam duas vezes antes de vomitarem a primeira alarvidade que lhes vier à moleirinha. Por incrível que pareça, ter ar de maldisposta funciona melhor que ser-se bem educada. Porquê, nunca entenderei.

Ainda assim, sempre me consola pensar de mim para comigo que, daqui a uma década, eu vou ter a fuça linda e viçosa, e as meninas pintadinhas e "muito adultas" vão ter a cara como a segunda circular. Nesses momentos, pode ser que um sorriso, também à la Wednesday, passe pela minha face.

A minha vida dava uma Ramona. Um dia destes, quem sabe.



# eueojaredletousamosomesmocremeantirugas # maseunaosouvegetarianacomoele
# bemseiquecomervegetaisfazbem # masquememtiraumbifinhodevacaeunscamaroezinhostirametudo
# tambemnãofumoerva # ejaagoraachristinariccitambemnaoestanadamalparaaidade
# seraqueelafumaerva # oufoidealgumacoisafumegantequebebeunasrodagensdafamiliaaddams

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Ramona

Há dias que parece que saíram da Ramona, ou qualquer outra produção do género. Não, não me estou a referir a um dos vários termos utilizados para designar as forças das autoridades. É algo bem mais tenebroso. Estou a falar de... novelas.

Quem, que tenha vivido nos idos anos 80 e 90, se esqueceu das produções da Globo e, pior!, das novelas mexicanas e argentinas e que, depois de "dubladas" no Brasil, iam para o ar na RTP1?! Ninguém, até porque a coisa traumatizou uma geração. Uma delas era a Ramona.

Já não me lembro do argumento desta novela em questão, mas quase posso adivinhar que tinha triângulos amorosos, troca de crianças na maternidade, uma ou outra calamidade natural, uns bandidos da pior espécie, troca de exames médicos, uma vilã pior que a Rainha da Branca de Neve, pelo menos um assassinato e um final estupidamente feliz, com os bons casados e cheios de bebés, e os maus presos ou falecidos. Portanto, tudo a que uma produção de ficção televisiva sul americana tem direito, em quantidades generosas e acima do permitido por lei. A única coisa que sei é que era essa a novela que estava a ser transmitida no dia dos atentados em Nova Iorque, e que a sua emissão foi interrompida para ser dada a notícia da tragédia em primeira mão.


Daí que Ramona é sinónimo, por várias razões, de histórias do arco da velha, mais ou menos trágicas. Ou apenas estupidamente absurdas. E eu cá cruzo-me com essas histórias muitas vezes no dia-a-dia, demasiadas vezes até. Não deve ser uma coisa saudável.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Perdita

Se há pessoas que têm nomes que se lhes assentam que nem uma luva, e cujo significado consegue resumir fabulasticamente a sua personalidade, eu cá não estou nesse grupo. Se assim fosse, chamar-me-ia, com toda a certeza, Perdita*.

Certo dia, na verdade, cerca de 48 horas depois de voltar a Portugal da fantástica viagem ao UK, Nightwisha Maria já estava a fazer das suas. O meu computador é um anãozinho de amostra, por isso, é fácil perder-lhe o rasto. Quando preparava, depois do jantar, toda a quinquilharia que teria de levar para o escritório no dia seguinte, recomeçou a saga da procura do pc, dos cabos, da pen da internet. Tudo foi efectivamente encontrado com alguma rapidez, excepto o computador. Revira casa para um lado, revira casa para o outro, enquanto tentava reconstituir o meu itinerário nas últimas horas. Heis senão quando, algo me passou pela cabeça. “Eh pah, eu ontem fui tirar cópias à loja de baixo e não me lembro de ter trazido o computador”.

Como uma bala, sem pensar em mais nada, mandei-me pela porta fora. Chegada à lojas das fotocópias, expus a situação. Os funcionários que me atenderam e o dono foram muito atenciosos e prestáveis, procuraram as instalações para ver se alguém tinha guardado um computador “perdido”, mas nada. Ainda fiquei a conversar um pouco com eles, como que a resignar-me para o pior. Eles prometeram ver se conseguiam saber alguma coisa, eu prometi que ia procurar melhor, até porque sou uma cabeça de alho chocho.

Voltei para casa e continuei a demanda, já totalmente desanimada. Poucos minutos depois levantei a carteira... e o estupor do computador estava debaixo dela, ali, no debaixo do meu nariz, o tempo todo. O único sítio onde não procurei. Carteira preta, computador anão enfiado na sua capa preta, só pode dar asneira e vergonha milenar. Voltei à loja para desfazer a confusão que criara uns minutos antes. Quando entrei, um dos funcionários que nem sequer entrara na primeira conversa, mal me viu, perguntou esperançoso: “Encontraste?!”. Socorro. Afinal, toda a gente que estava na loja ouvira a conversa e percebeu que eu era doida da pinha. Pedi desculpas pela confusão e, muito envergonhada, voltei para casa. Agora, com toda a certeza, todos os funcionários e o dono daquela loja me passaram a conhecer, daquele dia em diante, como a miúda chanfrada que perde coisas. Ou Perdita.



* Válido apenas caso fosse estrangeira, filha da Luciana Abreu ou uma cadela dálmata. Para mais informações consulte a lista de nomes próprios permitidos pelo Registo Civil, ou o seu farmacêutico.

domingo, 11 de setembro de 2016

A anatomia de um autocarro

Confesso que não ando muito de transportes públicos, mas quando vou e venho da terrinha, viajo de autocarro, por falta de alternativas, uma vez que não sei conduzir nem tenho carro (isso de ter carta de condução não é condição para se saber, ou não, conduzir...). Mas oh Nightwisha Maria, não sabes onde fica a estação de comboios? Sei, mas desisti. Depois de uns dois anos de greves que eu nunca conseguia perceber quando eram (eram sempre, vá) da CP, decidi mandá-los para o raio que os parta e passei a andar de autocarro. É mais barato (mesmo que tivesse carro, o Orçamento de Estado da Ditadura da Minha Casa não me concederia verba para a gasolina), passa perto de casa e não tenho que fazer transbordos, que ficar quase uma hora em Nine, que não tem nada perto, muitas vezes à noite, era coisa que me punha os nervos em franja.


Por isso, autocarros. Mas as viagens de e para a terrinha são uma autêntica saga. Não tenho expressos. Demoro, de Viana a Braga e vice-versa, quase duas horas, porque o autocarro vai dar a volta pelo bilhar grande, às terrinhas que a maioria das pessoas não sabe que existe, literalmente, por montes e vales e ravinas que não devem ser espreitadas por pessoas com vertigens. Os autocarros não têm internet para me entreter e ler um livro ou até uma sms no telemóvel é coisa para me nausear até à semana seguinte. Por isso, vou o caminho todo a ouvir música. E (infelizmente) a apreciar as pessoas.

Encontrar um sítio para me sentar é uma verdadeira ciência, que até parece merecer um documentário da BBC. Costumo ficar na terceira fila, lugar estratégico, portant's, uma vez que enjoo com uma facilidade quase inexplicável e, depois disso, é tombo para um lado, tombo para o outro. Se me sentar nas primeiras duas filas, a viagem é igualmente arriscada, graças à espécie mais medonha a alguma vez pôs um pé num autocarro: aqueles que morrem se não forem no primeiro banco, ali na peugada do motorista, mesmo que, para isso, se tenham que espremer junto de alguém cheio de sacas (ou malas, no meu caso), ou tenham a lata de nos mandar para outro sítio qualquer, porque aquele lugar tem de ser seu.

Depois de espalhar a minha pessoa e toda a tralha que levo comigo, não consigo deixar de apreciar o espectacular comportamento humano. As pessoas mais velhas, que vão o caminho todo a queixar-se, em altos berros, de que no seu tempo é que era, que os jovens são todos os preguiçosos e coisas que tais. Os trombudos, sempre à coca de um lugar da frente deixado vago por um velhote, o qual atacam como lobos para não o perder para outra pessoa. Aqueles que, mesmo estando o autocarro vazio, se querem sentar, à força toda, ao lado dos dois únicos ocupantes da viatura que viajam sozinhos. Há também aqueles que, onde quer que se sentem, querem meter conversa com qualquer pessoa, nem que seja a senhora que se sentou do outro lado da viatura, só para não ficarem a olhar para o balão.

A viagem em si, pelas horas que passo a ouvir música e a olhar pela janela, sem muitas vezes ver a paisagem porque me encontro distraída nos meus próprios pensamentos, é bastante agradável. São, aliás, óptimas para descansar simplesmente, ou para aproveitar para fazer um exercício de introspecção (é daí que vêm muitas ideias para os posts daqui do WalC). Mas as pessoas irritam-me a alma. Por isso, viajo sempre caladinha, com os meus phones enterrados nas orelhas, a ver se ninguém repara em mim a "estudar" o quão estranhos nós, humanos, conseguimos ser.


Hoje vou andar de autocarro numa dessas viagens. Acendam uma velinha pela minha paciência, fachabori. Ela (a minha paciência) vai precisar.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Prioridades

Certo dia, precisei de ir a um serviço público entregar uns documentos de um cliente. Dirigi-me então ao balcão central do referido serviço, onde deveria especificar o que desejava e, em consequência, receber uma senha para a secção competente pretendida. Naquele local, não há maquinas onde possamos escolher as senhas que queremos.

Como toda a gente sabe, as repartições públicas são, na falta de melhor palavra, um inferno: há povo que mete medo, os sistemas de ar-condicionado oscilam entre o verão da Sibéria e o inverno de Satã, e os funcionários, na sua maioria, têm mau-feitio. Sabendo que tinha muito que fazer, uma pilha de trabalho à minha espera no escritório e que poderia pedir uma senha prioritária (em função da profissão), foi isso mesmo que fiz quando chegou a minha vez de ser atendida no balcão central.

Nightwisha Maria: Por favor, queria uma senha prioritária para a secção de entrega de documentos.
Funcionária 1: E por que razão quer uma senha prioritária?
*Ora, porque sou parva da cabeça e gosto de pedir coisas*
Nightwisha Maria: Por ser advogada (naquele momento, tive a presença de espírito para omitir o sufixo "estagiária").
Funcionária 1: Posso ver a cédula?
*Passo cá a vida e perguntam-me pela cédula?!*
Nightwisha Maria: Sim, com certeza *procura nos confins da mala* Aqui está.
Funcionária 1: Aqui tem a sua senha.


Primeiro obstáculo ultrapassado. Mal tive tempo para me encostar a um canto qualquer, já a minha senha mágica aparecia no ecrã. Atendi imediatamente ao chamamento, caso alguém, do outro lado do botão, se arrependesse de me atender. Cheguei então ao balcão da secção de entrega de documentos.

*Funcionária 2 levanta-se ligeiramente da cadeira e olha, algures, para as minhas pernas*
*Nightwisha Maria olha, instintivamente, para as pernas, ao mesmo tempo que pensa que se terá sujado a comer*
Funcionária 2: Estava a ver se estava grávida.
*Ah! Afinal não estava suja!*
Nightwisha Maria: Ah?
Funcionária 2: É que, como pediu uma senha prioritária, pensei que estivesse grávida.
Nighwisha Maria: Não. Há outras senhas prioritárias, como as dos advogados que vêm tratar de entregar documentos de clientes. (Mais uma vez, tive a presença de espírito para omitir o sufixo).
Funcionária 2: Mas podia estar grávida na mesma, e não saber...
*Isto não me está a aconteceeeeeeeeeer...!*
Nightwisha Maria: Desculpe lá, mas se estivesse grávida, eu sabia.
Funcionária 2: Mas podia não saber.
Nighwisha Maria: Se estivesse grávida, eu sabia.

Depois disto, quase a pedir de joelhos, a mulher lá se calou com o raio da gravidez desconhecida e assintomática, e se dignou a recebeu-me os papéis. Um sacrifício para o típico funcionário público. Desde que não seja dar à palheta e engravidar pessoas, deus-ma-libre-que-este-trabalho-dá-cabo-de-mim! (Felizmente, nem todos os funcionários públicos são assim... Há uns 39, espalhados por esse país, que são extremamente competentes). E que não entendem a essência das prioridades. Se elas existem (não em todas as repartições públicas, que já vi mandarem uma grávida esperar como os outros, porque ali não havia daquilo), é para serem usadas e há-de haver uma razão para isso.


Se é chato ficar horas numa fila, às vezes, para se levar uma banhada de um funcionário mal-disposto, e que ainda só conseguiu fazer 42 pausas naquele dia? É. Mas se a minha profissão (meia, não esquecer o sufixo) me dá essa benesse (deve ser a única, neste momento), porque estou ali em trabalho e a resolver problemas alheios, não vou perder a tarde toda para entregar uns papéis que apenas exigem da funcionária que me atendeu, registar umas folhas no sistema electrónica e fazer um carimbo. A conversa fiada sobre gestação hipotética era desnecessária.

Cenas tristes e bilhetes do prego, só a mim. (Não sei de ontem esta "frase típica veio, mas ouço-a desde sempre). 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

It can't rain all the time

Às vezes, o universo arranja forma de falar connosco, mas nem a todos é concedido o dom de o ouvir.

Não posso dizer que, de certa forma, não estivesse à espera. O universo falou, eu fiz de conta que não estava a ouvir. Se bem que isso não adiantou coisa nenhuma. A caça dos dragões não correu assim lá muito bem. Chumbei no exame da ordem com 9.13 valores. Primeiro veio a raiva. Depois veio a tristeza e a desilusão. Primeiro vieram os nomes feios que atirei, sem peias, a meio mundo. Depois vieram as lágrimas de quem sente, ao fim de tantas batalhas e de regas do jogo invariadamente transmutadas à nossa revelia, a começar a perder as forças.

Mas a verdade é que chumbei e tenho que aceitar as minhas (minhas?) fraquezas. Chumbei num exame em que, "outrora", quase todos passavam. Mas as regras do jogo mudaram e ninguém me perguntou (ou ao resto dos cerca de 70% dos reprovados) se estava de acordo. Acima de tudo, acho que me sinto decepcionada. Comigo, claro. Mas não só. Agora, resta-me pedir a revisão da prova e esperar conseguir as quatro décimas que almejo. Se tudo correr mal, poderei repetir o exame mais uma vez. Parece pouco, mas o custo será mais alguns meses de longa e dolorosa espera, em que me parecerá que a vida, no geral, seguirá em frente, e eu ficarei para trás. Vai ser difícil, mas resistir terá que ser vencer.

Não vos vou pedir que me consolem. Ao invés, vou pedir que me presenteiem com uma história vossa. Poderá ser qualquer uma, tendencialmente, uma que termine em gargalhadas. O stock de risos d'O Covil tem estado em baixo nos últimos dias, e penso que tem que ser feita alguma coisa em relação a isso.

Por agora, vou conceder-me o privilégio e a ousadia de cumprir o prometido, e estar alguns dias livre de corpo e mente. Finalmente terei uns dias de férias, longe da correria, da monotonia e dos problemas. A vossa ilustre concierge vai estar ausente por uma semana, e vai voltar para vós um anos mais velha. Vou à Coimbra dos amores, vou ao estádio do maior, vou voltar a Sintra e vou à capital do norte ver um jogo de Quidditch. Vou conhecer pessoas novas e rever outras. Vou tentar viver despreocupadamente.


terça-feira, 12 de julho de 2016

Coisas inexplicáveis

Não sei se vos acontece o mesmo mas, depois de um dia extenuante e em que me arrasto até ao meu lindo colchão que por acaso não é ortopédico e me dá umas dores na coluna que devia dar direito a receber uma indemnização, o meu cérebro responde que não está para aturar as minhas manias de querer dormir. Naquele momento, vêm-me à memória as anotações na agenda para o dia seguinte, o telefonema que fiquei de fazer àquela amiga há dois meses atrás ou a resposta extremamente inspiradora que me falhou numa conversa à sombra da árvore do recreio da escola primária, entrelaçadas a questões existenciais que passam por saber se os pinguins têm joelhos ou se 94% do pessoal que escreve algum gatafunho nas redes sociais vai, alguma vez, aprender a fazê-lo em língua portuguesa, sem "kapas" e com uso de vírgulas incluídos.


Por isso, tem alturas que uma pessoa dá o braço a torcer e o resto do corpo também, enquanto espera que o João Pestana faça o seu o servicinho em condições, e se deixa inundar por pensamentos sobre coisas inexplicáveis, às quais a ciência mais avançada ainda não deu resposta, tais como:

  1. Por que razão o Moço deixa sempre as portas dos armários e as prateleiras abertas e as luzes ligadas por onde quer que passe.
  2. Por que razão o Kiko recebe bilhetes grátis para a Comic Con Portugal e eu não.*  **
  3. Por que razão eu tenho sempre óptimas ideias para posts quando não há um retalhinho de papel num raio de 4371 km e, quando tento assentar alguma coisinha a escrito... já se me varreu tudo da mona.
  4. Por que razão os paizinhos insistem em contabilizar a idade dos seus petizes em meses, mesmo quando eles pesam mais que um bezerro sobredesenvolvido, já falam, já correm, já sabem mexer em iphones, ipads e ai que não tenho paciência para os aturar, já tiraram a carta e já estão prestes a terminar o curso da faculdade. A minha idade? 311 meses e meio.
  5. Por que razão nunca sei onde pousei os 273 elásticos do cabelo que normalmente tenho no pulso. Ou as sabrinas que usei ontem. Ou aquela camisola que me lembro, vagamente, de ter arrumado no armário... ou de ter atirado para cima do meio kg de roupa que se encontra, mui sacralmente, depositado no sofá há três-quinze dias.
  6. Por que razão, em praticamente todos os filmes de extraterrestes, os argumentistas/realizadores teimam em recriar os "homenzinhos verdes" como sendo seres sedentos de estabelecer contacto com a Terra, maioritariamente das vezes para a conquistar, quando euzinha só quero distância da maioria dos terrestes. Acreditem, os extraterrestes têm mais que fazer que perder tempo connosco.
  7. Por que razão, consegui encontrar sandálias pretas, número 35, numa loja que nunca, mas nunca, tem nada que me agrade e pior!, que me sirva. Comprei. Dois pares.

Começo a achar que penso demais. xD


* Ok, até sei. Mais vale um Kiko que nada tem a ver com o mundo nerd, que uma Nightisha Maria le Geek desconhecida. Noblesse oblige (vulgo, publicisse oblige).
** Kikonettes deste mundo, percebam que não tenho nada contra o Kiko. Mas um bilhete grátis dava jeito.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Cenas da vida mirabolante

De acordo com os episódios espectaculosos com que vos presenteio com abundante regularidade, já devem ter percebido que sou uma pessoa a quem acontecem as coisas mais estapafúrdias alguma vez imaginadas. Tipo aquela criatura que está sempre lá, algures, no meio de uma multidão de povo, a levar com uns pixies da Cornualha.


Se houver algum (ou vários) tacos soltos no soalho de madeira, podem ter a certeza que sou eu quem vai tropeçar nos que estão soltos. Todos os tacos soltos. Sempre que lá passar. Todas as 8352 vezes. Sem qualquer dúvida. Estilo déjà vu da loja dos trezentos.

No dia em que o atrasado mental do motorista da TUB se lembrar de ir na faixa rodoviária central, a olhar para a morte da bezerra, mas nunca para a próxima paragem de autocarros, sou eu quem vai lá estar, a esbracejar feita doida... e não apanhar autocarro nenhum.

Se a maquinaria do escritório decidir, como por artes de belzebu, tirar férias sem vencimento e chegar ao cúmulo de não ligar (ecrãs azuis não contam...), sou eu quem vai estar a ligar e desligar fios, a fazer 13492 resets e a empoleirar-me em cima da secretária em posição de corvo (ou outra de yoga extremamente difícil) para ver se se dá um ritual qualquer desconhecido e aquelas geringonças decidam voltar à vida.

No exacto momento em que o elevador não estiver virado para a grotesca função de funcionar, sou eu quem vai ter que se descalçar para conseguir subir quatro andares de escadas, com meia tonelada de lancheira, processos e tamancos na mão.


Como podem ver, tenho muitos atributos e uma vida plenamente preenchida. Estas foram as peripécias de hoje... e o dia ainda não acabou. Devo ser parente do Neville Longbottom e ainda ninguém descobriu. Mas os amiguinhos do Voldy apagaram os registos dos muggleborns nascidos entre 1985 e 1998, por isso, não me admirava nada. Já agora, já que tenho os genes da desastrice, também me dava jeito ter os da jeitosice que se revelam depois da adolescência. Esses ainda não se manifestaram.

Entretanto, enquanto a minha carta de Hogwarts não chega, podem sempre contactar-me quando precisem de alguém que descubra os vossos tacos descolados. Não é que eu não esteja habituada. E os trocos davam-me jeito.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Dragon Hunters

Depois de algum tempo de ausência, e de ter sobrevivido ao pior exame escrito da minha vida... estou de volta. É quase caso para dizer que regressei dos mortos.

As últimas semanas antes do derradeiro momento de auto-flagelação, comummente conhecido como exame de agregação da ordem dos advogados, foram intensas. Por isso, afastei-me de praticamente tudo o que me pudesse distrair, inclusivamente da leitura. Tornei-me perita na grelha de programação da RTP2 no que concerne a desenhos animados*, que me faziam companhia enquanto desesperava no meio dos calhamaços e da papelada. Também andei insuportável.

A passada sexta-feira foi dia de enfrentar o dito "pelos cornos", rumo ao Porto, onde fiz o meu exame, juntamente com o Moço (que esteve durante horas, estoicamente, à minha espera) e um trolley cheio de códigos até abarrotar. A demanda avizinhava-se difícil. Primeiro, porque era o dia em que as provas do Rally de Portugal iam tomar lugar naquela cidade. Alegadamente, uma grande parte das ruas do centro do Porto estaria cortada ou congestionada e, se os senhores estagiários quisessem fazer o exame, teriam de se desenrascar.

Depois, acordar às 05:15 horas para fazer um exame que iria abarcar parte da manhã e da tarde, com a duração total de cinco horas e meia e incidiria sobre cinco temas/ramos do direito, é coisa para nos deixar mais que desvairados. Já no Porto, e pouco depois de sair do metro... esconchavei uma roda do trolley. Fui a pé até ao locar do exame, constatando, surpresa, que o trânsito circulava sem qualquer reparo. Afinal, apenas os Aliados e pouco mais estavam cortados, tinham colocado passagens para os peões e não havia estações de metro fechadas. Aí, o ânimo era geral: parecia que estávamos todos prestes a ir para o cadafalso. Não saímos melhor. O exame que se nos apresentou foi, sem qualquer dúvida, um dos mais longos e difíceis de sempre. Mas há que ter confiança. É nestes momentos que temos que pensar que nem tudo é justo. Custa, custa mesmo muito, mas se é para ser, que seja para vencer.

Aproveitei as horas que se seguiram, assim que me vi "uma mulher livre", a conceder-me o direito de não pensar mais no assunto. Comprei um livro num dos muitos alfarrabistas da zona. Fomos passear com um casal amigo para a Foz e acabamos por jantar com eles comida asiática. Nos dias que se seguiram, decidi tirar umas férias de mim mesma. Acho que, agora, estou finalmente pronta para voltar a ser eu. Falta-me, apenas, consegui repor as horas de sono perdidas ^^


* Dragon Hunters (Chasseurs de Dragons no original) é uma animação francesa que é transmitida pela RTP2, duarnte a tarde. Foi com bastante admiração que constatei que a música de abertura, com o mesmo nome, é dos ingleses The Cure. Por todas as razões possíveis e imaginárias é, sem dúvida, uma música adequada à ocasião.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Aceitam-se recomendações de bons restaurantes na Rússia

Sinto-me a resvalar para o desespero. Mais ou menos figurativamente. É a pressão do exame que se aproxima a passos largos, as responsabilidades no escritório (uma vez que desaparecer da face da Terra durante umas semanas não é opção, pois atirar para os ombros de outros as minhas responsabilidades é falta de respeito e de carácter e, disso, felizmente não sofro) e todos os típicos problemas e pressões pessoais das quais não me livram livro.

Essencialmente, preciso de férias. À noite, antes de dormir, ainda tento ler uns capítulos, mas nem sempre consigo. Vou-me distraindo, para não dar gripar o motor, como posso. Isso faz-me lembrar que da última vez que tive de férias, nas duas últimas semanas de Agosto (acreditem em mim quando vos digo que o natal não contou).

No início de Setembro, já de volta às andanças do escritório, recebi uma colega que costuma ter processos connosco. Enquanto fazia um pouco de sala (noblesse oblige...), e se faziam e respondiam às perguntas da praxe, essa colega confessou que, durante as férias judiciais tentou ir à Rússia, mas não conseguiu porque não havia vagas em lado nenhum. Por fim, acabou por passar uns dias numa casa de férias, no Norte. E, como mandam as convenções sociais, questionou-me onde tinha passado as minhas férias.



Instalou-se, por momentos, um silêncio estranho. Tenho a leve sensação que a colega achou que estava no gozo com ela... Mas nunca saberemos. Depois passou-se ao tópico seguinte, igualmente desinteressante, até chegar outro colega e me substituir nessa nobre arte de encher chouriços de forma erudita, a qual eu, claramente, não domino. Competir com a Rússia, com três dias de acampamento numa aldeia perdida no mapa, só para os fortes... ou para os doidos que não têm vergonha na cara.

terça-feira, 29 de março de 2016

Epicamente


Quem me conhece há algum tempo sabe do meu gosto desmesurado pela leitura. Adoro ler, mas também não é nenhuma mentira nenhuma que também gosto de escrever - afinal, tenho um blog onde espalho, aqui e ali, um episódio diário, uma trenguice qualquer, ou um pensamento mais ou menos sério - e posso dizer que conheço relativamente bem o mercado livreiro e editorial (e do qual já falei do assunto aqui).

Há uns dias, enquanto estava a estudar, tinha a tv ligada e estava a ser transmitida uma novela que está agora a ser repetida. Apanhei, "no barulho das luzes", a seguinte cena:
- Indivíduo 1: Se calar, devia fazer como "Não Sei das Quantas" e despedir-me. Assim tinha mais tempo para escrever.
- Indivíduo 2: E depois como arranjavas dinheiro para pagar à editora para publicar os teus livros?

Assinar com uma editora é algo comparável que fazer um pacto com Belzebu. O autor cria a obra e cede o direito de edição e publicação, a troco de um género de royalties sempre que um exemplar, físico ou digital, depende dos pactos, vulgo, contratos, seja vendido. É certo que a editora "toma para si" os custos e riscos de publicação, mas também é certo que só investem naquilo que sabem que lhes vai dar lucro. Se acham que as editoras existem apenas para prosseguir o nobre interesse cultural, esqueçam. Como empresas que são, acima do intuito cultural, está o económico. Ainda assim, com as editoras sabemos com o que contar. Se é para fazer um pacto, que seja com o Boss dos sete círculos do inferno e não com um diabrete saltitão que por ali anda - diabretes mais conhecidos como plataformas/editoras de auto-publicação, vulgo, impressoras com um nome chique, das quais a mais conhecida é, provavelmente, a Chiado. Nunca procurei saber como essas empresas funcionam, pois não tenho grande referência de uma editora que, essencialmente, cobra aos autores para os publicar, independentemente da qualidade (da obra, e dos seus serviços de edição, paginação, et cetera...).


E eis senão quando... descobri que a Saída de Emergência decidiu que o seu nome não estava suficientemente na lama e criou a Editora Épica. Fui ao site deles e li todas as informações que aí disponibilizam e ainda o "Manual de Publicação para Escritores" (que, contrariamente ao que fazem crer, pode ser descarregado sem que seja preenchido o formulário disponibilizado, que só está ali para enganar o pessoal e fazer com que as vossas informações façam parte de uma base de dados de possíveis clientes deles, vulgo, autores editados por eles).

É simplesmente revoltante. No essencial, a Editora Épica oferece os seus serviços em forma de packs, que consistem na criação de exemplares físicos e/ou digitais, dependendo dos pack(tos), até 250 páginas (mais do que isso... só com orçamento), e ainda alguns serviços de markting (no caso das opções mais caras), sempre a preços exorbitantes. Os serviços de edição e revisão de texto sobejamente apregoados são... opcionais e passíveis de orçamento, ou seja, não se encontram incluídos nos referidos preços exorbitantes. Capas personalizadas - era para rir ou também se paga à parte?!

Apesar dos serviços de impressora (que é isso que realmente são), nem todas as obras são publicadas, só aquelas que passarem no crivo da empresa. Em caso positivo, por cada exemplar vendido, a editora/super impressora oferece aos autores 15% do preço de capa. Mas isso é antes ou depois de o autor pagar para ser publicado? Por essa margem, vou ali às 294 reprografias à volta da universidade, aproveito e faço uns cartões também, ou publico em formato digital, ainda que a preços substancialmente mais baixos, e saí-me mais barato.

Mas calma lá! "Se o seu livro autopublicado na Editora Épica vender mais de 1.000 exemplares nas livrarias, está de parabéns, é sinal que encontrou o seu público. Como tal, vai receber uma prenda imediata: o seu manuscrito beneficiará de uma revisão e edição de texto profissional (sem qualquer custo para si), e será relançado pela casa mãe, a editora Saída de Emergência, com nova capa e ao lado de alguns dos maiores bestsellers do mundo." (sublinhado nosso). Depois do autor e a sua obra serem conhecidos, para o que esta empresa pouco ou nada contribuiu, já estão muito interessados em assinar um pacto, vulgo, contrato, muito profissional, onde vão tirar, duplamente, partido do esforço alheio.

E só uma nota jurídica, que disso, eu realmente sei qualquer coisinha: a editora não oferece direitos nenhuns. Oferece parte do preço recebido pela venda de um exemplar, tipo royalties. Mais, nenhuma editora fica/é proprietário de todos os direitos do autor sobre a obra nem, caso o autor queira editar com outra empresa, tem que comprar os seus direitos de novo. O contrato em causa trata apenas de direitos de edição e publicação. São direitos meramente patrimoniais, visto que os pessoais nunca deixam a esfera do autor, mesmo depois da sua morte e da queda da obra no domínio público. E os contratos têm prazo. Podem ser renovados ou simplesmente terminar, caso em que o autor poderá, livremente, editar com outra empresa. Vale tudo, portanto.

Para quem não quer esperar... é um mau negócio, no mínimo. Aliciar possíveis clientes deles, vulgo, autores editados, com as 12 editoras que recusaram a publicação de Harry Potter de J.K Rowling, ou com as "auto-publicações" de autores de um século em que as fotografias a cores eram ficção científica (os outros estão apenas a preto e branco para não se notar a diferença de épocas), é moralmente reprovável, para não dizer mais. A vontade desmesurada de se ser editado não me é desconhecida, mas a aceito a qualquer custo. É verdade que há muito talento por aí desperdiçado, e a auto-publicação não é uma alternativa da qual não sou contra, mas isso não justifica consentir em ser-se deslumbrado e enganado. Os "Sims" e os "Nãos" existem como tudo na vida. Não desistam e trabalhem para melhorar todos os dias. Valorizem-se, a vocês e às vossas obras.